“No princípio, Deus criou…” (Gn 1,1)
A narrativa da criação contida nos três primeiros capítulos do Gênesis não é apenas uma introdução poética às origens do universo. Trata-se de uma chave hermenêutica fundamental para compreender a identidade do ser humano, sua vocação mais profunda e o drama que marca toda a história da salvação: o pecado. Os Padres da Igreja, atentos ao valor espiritual e teológico do texto bíblico, leram estas páginas iniciais como um espelho da alma humana e do plano eterno de Deus.
1. O cosmos como obra ordenada do Logos
Ao criar o mundo por sua Palavra, Deus manifesta que a realidade não é fruto do acaso, mas de uma inteligência eterna e amorosa. “E Deus disse… e assim se fez” (Gn 1,3ss). O Verbo, que no prólogo joanino é identificado com o próprio Cristo (Jo 1,1-3), é também o arquétipo de toda criação. Santo Atanásio, no século IV, escreve:
“Nada veio à existência sem o Verbo; tudo o que foi criado tem nele seu princípio e sua finalidade.”
(De Incarnatione Verbi, 3)
A criação é boa, harmoniosa, progressiva. Deus conduz o universo em direção ao seu repouso — o sábado — símbolo da comunhão final entre Criador e criatura.
2. O homem: ícone do Criador no mundo
A criação do homem marca uma ruptura no ritmo do texto: Deus agora “faz” e “modela”, usando linguagem que indica cuidado pessoal e intimidade. “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança…” (Gn 1,26). A imagem, segundo Santo Irineu de Lião, reside nas faculdades espirituais — razão, liberdade e capacidade de amar — enquanto a semelhança é um dom que precisa ser cultivado pela união com Deus.
“O homem foi feito para crescer na amizade divina e, por graça, tornar-se aquilo que Deus é por natureza.”
(Adversus Haereses, IV, 38,3)
O ser humano, portanto, não é apenas parte da criação — ele é o ponto de encontro entre o visível e o invisível, chamado a participar da vida divina.
3. O mistério da liberdade e a tragédia do pecado
No centro do jardim, duas árvores: a da vida e a do conhecimento do bem e do mal. A presença dessas árvores indica que a liberdade humana é real: o homem pode escolher amar a Deus — ou rejeitá-Lo. Quando o homem cede à serpente, não comete apenas um erro moral; rompe uma aliança. O pecado original é, nas palavras de Santo Agostinho, “uma curvatura da vontade sobre si mesma” — o abandono de Deus como centro para buscar a própria autonomia.
“A raiz do pecado é o orgulho: querer ser deus sem Deus.”
(Confissões, XII, 6,6)
Com a queda, o homem perde a comunhão com Deus, desorganiza sua própria interioridade e desequilibra a criação. A nudez, antes símbolo de transparência, torna-se sinal de vergonha. A expulsão do Éden é o exílio da alma que se aparta de sua fonte.
4. O protoevangelho: uma esperança selada na dor
Mesmo no ápice do drama, Deus pronuncia uma promessa: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela te esmagará a cabeça…” (Gn 3,15). É o protoevangelho, o primeiro anúncio da redenção. Os Padres viram aqui a figura de Maria e de Cristo, a nova mulher e o novo Adão, que viriam restaurar aquilo que fora perdido.
São Gregório de Nazianzo proclama:
“O Verbo desceu até onde o homem caiu, para erguer consigo toda a natureza humana.”
(Oratio 45, sobre a Páscoa)
A queda não anula o plano divino, mas torna-o ainda mais surpreendente: o Deus ofendido é também o que busca, perdoa e redime.
Conclusão: A antropologia cristã nasce no Gênesis
O homem é criado à imagem de Deus, vocacionado à glória, mas ferido pela desobediência. Ainda assim, sua história não termina na queda. Toda a economia da salvação será o caminho da restauração dessa imagem por meio do Cristo, novo Adão, e da graça que Ele nos comunica. Entender Gênesis 1–3 é compreender não apenas o passado mítico da humanidade, mas o drama espiritual que continua no íntimo de cada alma.