Introdução: A revelação no fogo

A história da salvação atinge um novo clímax com a figura de Moisés. Se em Abraão temos o chamado da fé, e em José a providência silenciosa, com Moisés Deus intervém de modo estrondoso, libertando o seu povo com braço forte e estabelecendo com ele uma aliança perpétua.

Moisés é, ao mesmo tempo, profeta, libertador, legislador e intercessor. Nascido no tempo da opressão, educado na casa do faraó, conduzido ao deserto, ele é o vaso escolhido para manifestar a santidade, a justiça e a misericórdia de Deus. Como afirma Santo Irineu de Lyon:

“Por meio de Moisés, Deus revelou ao homem o que é a verdadeira liberdade: não a ausência de jugo, mas a obediência à verdade.”
(Adversus Haereses, IV, 16, 2)

1. O chamado no deserto: a sarça que arde sem se consumir (Êx 3)

Moisés é chamado por Deus quando pastoreava o rebanho no deserto de Madiã. A sarça ardente que não se consome é um sinal da presença divina que não destrói, mas purifica. Deus se revela com um nome novo: “Eu sou Aquele que é” (Êx 3,14), a fonte de todo ser, Aquele cuja existência é necessária e eterna.

Ali, no silêncio do deserto, Moisés recebe a missão impossível: libertar Israel da escravidão do Egito. Deus escolhe o humilde, o exilado, o inseguro. São Gregório de Nissa vê nesse momento o início da verdadeira teologia:

“A sarça ardente é imagem da luz inacessível de Deus que, contudo, se manifesta no mundo. Conhecer a Deus é entrar, com temor, nesse fogo que purifica.”
(Vida de Moisés, II, 69)

2. O Êxodo: da escravidão à liberdade (Êx 7–14)

Dez pragas caem sobre o Egito, não como simples punições, mas como sinais do poder divino sobre os deuses falsos. Cada golpe desfaz um ídolo. Finalmente, com a morte dos primogênitos, o faraó permite a partida do povo.

A travessia do Mar Vermelho é o ponto culminante: Deus divide as águas, e Israel passa a pé enxuto. Ali nasce o povo da aliança, não por sua força, mas pela graça. O mar fecha-se sobre os egípcios, imagem do pecado vencido.

São Cirilo de Jerusalém interpreta o evento à luz do Batismo:

“O Mar Vermelho é tipo das águas batismais. O povo sai da escravidão pelo sangue do cordeiro e pelas águas. Assim também o cristão é liberto pelo sangue de Cristo e pelo Batismo.”
(Catequeses Mistagógicas, III, 5)

3. O Sinai: a lei como caminho de santidade (Êx 19–24)

Três meses após a saída do Egito, Israel chega ao Sinai. A montanha treme, relâmpagos cortam o céu, e o povo se purifica. Deus desce para estabelecer sua aliança: Ele será o Deus deles, e eles, seu povo santo.

Os Dez Mandamentos (Êx 20) não são imposições externas, mas revelações do caminho da vida. São Bento chamará a Lei de “escada espiritual”. Santo Agostinho ensina:

“A Lei foi dada para que a graça fosse desejada; a graça foi dada para que a Lei fosse cumprida.”
(De Spiritu et Littera, XIX)

Moisés sela a aliança com sangue (Êx 24,8) — figura do sangue de Cristo, que selará a nova e eterna aliança. O Sinai é o casamento entre Deus e Israel: uma união que exige fidelidade, reverência e amor.

4. Moisés, o mediador e intercessor (Êx 32–34)

Quando o povo trai a aliança adorando o bezerro de ouro, Deus anuncia a destruição. Mas Moisés intercede. Sobe a montanha novamente, jejua quarenta dias, oferece-se como expiação.

“Ou perdoas este povo, ou risca-me do teu livro” (Êx 32,32).

Aqui ele prefigura Cristo, o único Mediador entre Deus e os homens. Sua face resplandece ao descer da montanha, pois esteve com Deus. Moisés é a figura do sacerdote que sofre pelo povo, do profeta que carrega a dor da infidelidade, do amigo íntimo de Deus.

Orígenes comenta:

“Moisés ora não por si, mas por um povo infiel. Assim, Cristo orou por seus inimigos. A intercessão é a mais alta forma de caridade.”
(Homiliae in Exodum, XIII, 4)

Conclusão: A Lei e a Liberdade

Com Moisés, compreendemos que a liberdade não é ausência de limites, mas capacidade de viver segundo a verdade de Deus. O Êxodo é o início da pedagogia divina, onde o homem aprende a viver não sob a tirania do faraó, mas sob a luz da santidade.

A Lei, longe de ser um peso, é uma profecia do Espírito. Em Moisés vemos a figura de Cristo: libertador, legislador e intercessor. Em Israel, vemos a Igreja nascente. E no Sinai, vemos o início do culto verdadeiro — um povo chamado à adoração em espírito e verdade.